O momento em que o leitor fecha o livro e impressões sobre "O tempo e o vento", de Erico Verissimo

    Este texto não é uma resenha, é mais a confissão de uma leitora encantada que não tinha com quem conversar sobre o final de uma obra que a cativou completamente: O tempo e o vento, de Erico Verissimo. É uma confissão sobre o momento em que o leitor fecha o livro e exclama mais uma vez: como é maravilhosa a Literatura!


 
09/02/2019:

    Fecho o livro com a sensação terna e, mais do que tudo, literária que vem com chegar ao fim de uma história, a qual ainda se seguiram cronologia da obra, breves biografias do autor, uma lista de suas obras, e ainda a última e derradeira página com todas as edições e reimpressões do livro e as informações sobre a diagramação, tipologia, impressão e sobre o papel certificado e produzido a partir de fontes responsáveis. Passei os olhos ainda marejados por todos essas formalidades pós-FIM até fechar, enfim, o calhamaço de 968 páginas sem orelhas, e olhar para sua capa já com saudades de sua presença. O tempo e o vento. Então é assim, no arquipélago, que termina uma das maiores obras da literatura brasileira.
    Fico alguns momentos abraçada a ele, sentindo-me ainda envolta pela atmosfera da história. É cruel para o leitor o fim de um livro, principalmente quando é o fim de uma obra que cobre duzentos anos da história de uma família, de uma cidade fictícia, mas inspiradas e baseadas em famílias e cidades reais no espaço e no tempo da História com H maiúsculo do Rio Grande do Sul, do Brasil e da vida de Erico Verissimo. Depois de tudo, de ver os personagens nascerem, viverem, amarem, morrerem, de repente um ponto final corta toda a correspondência de gerações do leitor com essas “pessoas” em quem ele investiu horas, dias, semanas de seu tempo para conhecer, cujas histórias o próprio autor levou 27 anos para desenvolver. E o que lhe sobra é um futuro reencontro que não dirá nada do futuro e nada de novo sobre elas, uma releitura que talvez nem venha a ocorrer. E daqueles seres que ele sente que pegou no colo quando bebês sobra a memória que será comumente traduzida como uma boa leitura.
    A Literatura é maravilhosa. Esse é um dos momentos que sou relembrada disso e agradeço por tudo o que me leva a essa conclusão, ter sido alfabetizada, ter sido apresentada aos livros e por ter crescido em meio deles, pela inteligência humana que levou à existência da arte das palavras e a sua acessibilidade.
   Sou tão parecida com Floriano e Sílvia. Ela é espelho dele, que por sua vez é espelho do próprio autor. E eu, leitora de sua obra mais de cinquenta anos após ter sido publicada, vejo também meu reflexo neles todos. Sim, que coisa incrível é a Literatura. No diálogo entre Floriano e Rodrigo o próprio autor revela que há o encontro entre criador e criatura. E eu, como leitora sou ainda uma terceira pessoa-personagem em tudo isso. Afinal, a matéria-prima do escritor é o ser humano, esteja ele dentro ou fora da obra. Essas ilhas, como pensa Floriano, que precisam ser unidas num arquipélago.
   Há muitas camadas de metalinguagem.
   Amo a Literatura. Amo ter entre as minhas lembranças as lembranças de outras pessoas, narradores, personagens, autores, que são reais por terem sido incorporadas à minha experiência a despeito de sua não-existência. O tempo e o vento estão agora gravados em mim com as vozes de Ana Terra, Luzia, Bibiana, Licurgo, Maria Valéria, Rodrigo Cambará, Floriano, Sílvia, Neco Rosa, Liroca, Pepe García, Toríbio, e por aí vai... E o vento sopra nas janelas do Sobrado. Noite de vento, noite dos mortos. Ainda bem que sou leitora, e para mim ainda estão todos vivos e bem guardados dentro das páginas desses três volumes. Embora muitas vezes eu tenha me emocionado ao “presenciar” as mortes de tantos desses.
   Hoje ainda é dia de deixar o livro por perto só para me desacostumar de sua presença silenciosa, de caçar os trechos cujas páginas anotei, de me habituar à ideia de que terminou, de lembrar e fixar esse terceiro volume junto com os outros dois em minha mente de forma que logo, logo não conseguirei diferenciar o fim de um e começo do outro. De escrever essas impressões de leitor que não tem com que conversar sobre a obra pela qual se apaixonou. Não conheço ninguém que já tenha lido a obra toda. Como eu queria! E alguém que ainda tivesse frescos na memória como tenho agora o nome dos personagens, seu trejeitos, enfim, sua quase que tridimensionalidade, realidade, fidelidade aos seres humanos reais... Alguém para dizer: sou como Floriano e Sílvia, como é maravilhosa a Literatura, é isso que quero fazer. Queria ter uma paixão assim pelas coisas da vida real, mas fui conquistada pelos livros, e pelos de ficção, tragada pelas palavras negras estampadas em fundo branco. E de certa forma é assim que amo mais os seres humanos, conhecido mais espécies deles por meio dos autores de diferentes partes e épocas do mundo do que eu poderia fazer ao longo de toda a minha vida. E o que estou escrevendo está mais no tom da narrativa do que no tom de quem sou plenamente, é um exagero, mas afinal, é parte de mim. De certa forma essa obra trouxe a Erico maior conhecimento de si e de seu povo, bem como traz a Floriano seu verdadeiro nascimento e reconciliação com sua terra, e extrapola criador e criação – mais uma vez -, fazendo-me entender como leitor, o que certamente ocorre com outros, mais sobre mim mesma, meu povo e o ser humano e a vida.

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   Estes são dois dos trechos que mais me marcaram em O arquipélago, último livro da trilogia:

   - Estou chegando à conclusão de que um dos principais objetivos do romancista é o de criar, na medida de suas possibilidades, meios de comunicação entre as ilhas de seu arquipélago... construir pontes... inventar uma linguagem, tudo isto sem esquecer que é um artista, e não um propagandista político, um profeta religioso ou um mero amanuense...

Floriano em O arquipélago, pág. 218.

  Passei a tarde no Sutil com os velhos. Como os invejo! Levam a vida que pediram a Deus. Sem compromissos mundanos, sem ambições, e possivelmente sem temores. Decerto aguardam a morte tranquilamente, como quem espera a visita duma velha comadre. Amam o pedaço de terra onde vivem, cercados de árvores, flores e bichos... Sem telefone, sem rádio, em suma, sem essas máquinas que o velho tanto detesta. A guerra não chega a tocá-los. Babalo segue o noticiário dos jornais com certa curiosidade, mas noto que não acredita na metade das coisas que lê. Um dia me disse: “É impossível que exista no mundo tanta gente louca e malvada”.
   Durante a visita pensei frequentemente em Floriano, por muitas razões, mas especialmente por causa da luz da tarde. Meu amigo dá sempre um jeito de meter nas suas histórias o outono, sua estação favorita. Enquanto eu caminhava ao lado do velho Aderbal pelo Sutil, frequentemente era a voz de F. que eu ouvia. “Que luz macia! A paisagem parece estar dentro dum enorme topázio amarelo. A gente vê ou sente que há também uns toques de violeta na tarde, mas não sabe exatamente onde estão.” Babalo me mostrou uma grande paineira, no alto duma coxilha, tranquila no ar parado, pesada de flores rosadas. O velho percebeu o meu enlevo e disse: “Sabe o nome dessa árvore? Bibiana Terra”. Mostrou-me depois um jequitibá alto e ereto: “Esta é a velha Maria Valéria”. Levou-me a ver um ipê ainda novo: “Esta é a Sílvia”. Olhou-me bem nos olhos e acrescentou: “Venha na primavera para ver como você fica bonita, toda cheia de flores amarelas”.
   Mas a mais bela de todas as coisas era a própria figura do velho Aderbal, com suas grandes mãos vegetais mas ao mesmo tempo tão humanas, sua pele tostada irmã da terra, e aqueles olhos que, de tanto olharem os largos horizontes da querência, pareciam cheiros de distâncias, saudades e histórias. (…)
   Floriano costuma dizer que existem dias de duas, três e até quatro dimensões. Nos de duas, quase morremos de tédio. Nos de três, amamos a vida, vislumbramos o seu sentido, fazemos e criamos coisas... Nos de quatro... bom, os de quatro são pura magia. Passamos a fazer parte da paisagem, quase atingimos a unidade com o cosmos.
Sílvia em O arquipélago, págs. 845, 846 e 847.