Abstração

Pensar às vezes é falar com Alguém numa conversa imaginária.
Somos dois personagens ao fundo da perspectiva de uma pintura, posicionados vagamente em algum lugar meio poético para complementar o todo. Talvez nem tenhamos algum rosto mais preciso do que uma pincelada. Mas isso não importa, aqui não somos reais.
Falo sobre algo que pensei, faço um discurso, minha boca como uma máquina de escrever, minhas palavras fluindo como se eu escrevesse. Ao meu lado, Alguém está interessado, olha para mim, para as palavras que brotam dos meus lábios, agarra-as no ar e as observa com interesse. Quando me calo, Alguém guarda algumas delas, troca outras de lugar e me oferece, enquanto novas palavras fluem de si. Está respondendo, e por tempo indeterminado essas palavras dançam ao nosso redor enquanto conversamos sobre qualquer coisa muito profunda, simples, pessoal, universal. (A música que me lembra aquele filme cujo nome não me lembro agora, o acontecimento trivial que me fez um pouco mais feliz, quando o vento sopra as folhas largas daquela árvore fazendo-as soar como o mar.) Até que as guardamos, misturadas entre si, dentro de nós, e deixamos que o silêncio venha no conforto de estar aqui na cor imóvel da tela. Quando imagino, Alguém não é sempre o mesmo, às vezes amigo, personagem, desconhecido. O que Alguém permanece sendo é diferente de si mesmo, de si mesmo fora da tela, fora de mim. Porque lá fora, onde somos corpo, mente e alma, as minhas palavras não são como se eu as escrevesse, elas esperam até serem chamadas e o momento não vem porque Alguém está falando de outras coisas, por que estaria interessado nos assuntos de figuras sem rosto? Em minhas mãos, seguro as palavras de Alguém, sem ver o que ele faz com aquelas que ofereço, hesitante. Se eu fosse de vidro, Alguém veria a tela cuja paisagem eu gostaria de descrever, mas sou opaca e não sei se é seguro abrir uma janela para que Alguém veja. Talvez eu tenha medo. Nesse plano em que estou, sinto-me subitamente só.
Vejo o Artista diante da tela, olhando sua obra com amor. Ele está ali há muito tempo, desde quando viu que era boa, e sua expressão nunca mudou. Quando o Artista é o Alguém, a tela se abre e a realidade se enche de todas as cores, porque o Artista é sempre infinitamente maior que o conjunto de sua obra, não cabe só nesse plano. Ele é O Alguém, aquele que ata suas palavras às minhas quando conversamos, aquele cujas palavras são a gênese da arte que é existir. No seu olhar de infinita sensibilidade mora a própria realidade, ele é O Alguém com quem lá é melhor do aqui dentro. A sua obra está dentro e fora de mim e eu me deixei envolver pelo seu pincel.
Existir é para sempre viver ao ouvir O Alguém.


Beatriz Teixeira
Fevereiro, 2018

Tela de Bato Dugarzhapov