Despedida do tempo além do portão

         Ao transpor esse portão pelo qual já entrei tantas vezes, meu coração acelera e talvez eu trema como se fosse a primeira vez, embora pudesse ser a última. Dentro, desse lugar e do meu coração, muitas coisas já mudaram em tão pouco tempo. Desde o primeiro dia em que saí daqui sem a obrigação de retornar, por causa do documento segundo o qual eu já aprendera tudo o que precisava nos últimos dez anos. Desde quando me senti sozinha pela primeira vez no dia em que comecei o ensino médio. Desde quando as lousas brancas mudaram para as lousas de giz e quando o ar-condicionado substituiu os ventiladores. Desde quando diziam que a minha sala era a pior e o pátio ficava cheio por causa da mesa de pingue-pongue que um dia quebrou e não voltou mais. Desde quando eu terminei o quinto ano e descobri que não queria crescer. Desde o tempo em que eu era uma criança entrando aqui pela primeira vez, quando aquelas salas lá de baixo ainda nem existiam, o tempo em que eu brincava no parque que tinha um gira gira que sempre quebrava e escrevia histórias muito grandes nas aulas de português.
          Vejo pessoas e coisas que não estavam aqui antes, esse lugar muda e cresce dentro das mesmas paredes, assim como eu cresço – ainda sem querer –, embora continue a ser a menina que fazia alegremente esse caminho para as salas de aula quase todos os dias. Mas agora eu não posso entrar em sala alguma porque fiquei muito grande para caber nelas, e talvez o homenzinho de metal que está aqui desde sempre não me reconheça mais porque já não visto o uniforme laranja e azul.
           As pessoas que sabem quem sou fazem perguntas cujas respostas são frases curtas de um texto muito longo que elas não gostariam de ler. Estão sempre a insistir nas mesmas interrogações como a lagarta que pergunta à Alice, quem é você?, e como ela eu não sei o que dizer. De qualquer forma, as pessoas que sabem quem sou pouco me conhecem porque tudo o que eu já disse não foi sequer metade do que gostaria.
        Parada no pátio, fico em pé porque o banco em que eu costumava sentar não está mais lá, embora eu estivesse ali, há pouco, tão nostálgica e incerta como agora, só que estava tudo bem porque o futuro ainda não era naquele dia. E eu com essa mania de sentir falta antes que haja falta, já olhava para tudo como quem olha para a foto em preto e branco de uma recordação em cores. Mas eu e o banco ainda estávamos ali e no dia seguinte, se não fosse sábado, eu entraria pelo portão em cima da hora da aula e como é primavera olharia para as flores da árvore de jasmim-manga caídas pelo chão; talvez pegasse uma para mim ou para alguém. Então eu daria vários bom dias e quando chegasse na sala sentaria em alguma carteira sob a janela para assistir à aula e às pessoas. Provavelmente, durante aquela manhã eu derrubaria coisas no chão e as ondas de vozes e olhares que esbarravam em mim fariam também o meu coração se derramar em amor. Nessas salas eu mal sabia que minhas melhores aulas teriam sido sobre o amor que jorra como o rio de águas vivas cuja nascente é o seu Criador.
          Àqueles que compartilharam o conhecimento com as mãos sujas de giz, eu gostaria de escrever um discurso tão belo que aquecesse seus corações como o meu que ainda bate com afeto por causa de suas vozes que enchiam a sala, de suas diferentes personalidades e humores ilustradas na lousa preenchida, de suas histórias talvez repetidas, de suas conversas e pequenas gentilezas entrelaçadas à rotina que me faziam grata e feliz. Aos conhecidos ou desconhecidos que trabalharam pela harmonia apesar do caos, eu deixaria uma carta que fosse pelo menos uma tentativa de pagar com o que realmente importa. Aqueles que comigo passaram pela fase obrigatória da vida, eu abraçaria de novo como quem abraça a memória de todos os momentos que compuseram a história que me formou.
       Agora, bem, o assunto morrerá quando eu disser “saudade” que é uma única palavra de um poema triste que eu não poderia declamar sem chorar. As lágrimas seriam as dores que ninguém adivinhou e o amor que não entenderiam. Suportarei, porém, toda saudade pelo amor, e um dia ela há de caber em mim como um sapatinho de cristal com o qual eu andarei sobre os alicerces de quem eu for, então.
       Outra vez devo transpor o portão e isso é uma despedida, porém não desse lugar e não de alguém, e sim do tempo do qual meu coração não desejou se desapegar. Percebi que despedidas, quando necessárias, ocorrem dentro de nós, sem festas e sem lágrimas. Portanto, esse é o adeus que adiei dar ao tempo. Porque, assim como eu, ele já não é presente, aqui.

Beatriz Teixeira,
Outubro de 2017.

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