Carta-espelho

   06 de agosto de 2016.

   Há muito tempo eu não escrevia, não é? Sei que você sentiu falta disso, eu também. De vez em quando, você sussurra uma ideia e eu digo que daqui a pouco. Mas daqui a pouco você desiste da ideia. Ultimamente, não tenho ficado satisfeita o suficiente com texto algum para conseguir chegar ao final. Então, finja que isto é uma carta. Fingirei que não estou escrevendo para mim mesma, se bem que falo sozinha o tempo todo. Quando eu ainda mantinha alguma regularidade (mesmo que de seis meses) com meu diário, era algo parecido com isso: escrever uma carta para ninguém, mas ele tinha um nome, assim como Anne Frank deu um nome para seu diário. Enfim, vamos fingir que isso é uma carta, que é algo que tenho escrito bastante nos últimos tempos. Resolvi que sempre vou escrever cartas para as pessoas, mesmo que só para a alegria de receberem algo feito só para elas, mesmo que não seja longa ou que repita coisas que eu já tenha dito. Além de cartas, a única coisa que tenho escrito muito mesmo são as redações de vestibulares, e como elas cansam, com suas 30 linhas e sua forma fixa – introdução, pensada por séculos, dois parágrafos de desenvolvimento, a melhor parte quando lembro de algum livro ou a mais cliché se não lembro de nada, porque elas se encaixam em qualquer tema possível, conclusão escrita sempre às pressas e um título mais ou menos. Estou muito mais para a liberdade modernista.
   Vestibular: disputando no ranking de palavras que mais ouço, concorrendo com Enem e a fatídica Já decidiu o que você quer fazer?. Repito para mim mesma todas as possibilidades de resposta, enquanto entro nos mesmos links do Guia do Estudante, os quais o mecanismo do google indica que já foram visitados 7 vezes (ou mais). Não vejo a hora de ter uma resposta. Passar para o curso e faculdade que eu escolher é meu principal objetivo desse ano, e ainda não o conheço. É difícil deixar quase tudo de lado só para estudar. É difícil não saber qual o limite que separa a necessidade do exagero. É difícil ser insegura em relação a muitas coisas e ter que decidir meu futuro. Você me lembra das minhas possibilidades e dos outros planos que tínhamos feito para esse ano. Mas o meu ânimo esmorece. E dói.
   Antes, crescer era só um verbo no horizonte, agora é não caber mais em qualquer lugar. É difícil admitir isso. É difícil encarar os últimos meses no lugar onde estive nos últimos dez anos. É difícil ter que escrever um texto tão ruim para sentir como se reabrisse uma janela que o vento fechou em mim. Quero escrever todos os dias e deixar em liberdade meus pássaros de papel. É bom ouvir o farfalhar de suas asas. Eles são as cartas que Deus me manda para que eu possa ver o que Ele vê nessa menina que eu sou. Todos os dias, Ele é quem não me deixa esquecer de todos os motivos que tenho para ser grata e para ser feliz. Mesmo que eu não faça para Ele tudo o que queria, os olhos dele acompanham todos os meus movimentos com atenção. Estou em dúvida em tudo, menos quanto ao seu amor, que é me sustenta e me encanta.
   Apesar de tudo, você ainda sonha em contar histórias que valham a pena com suas palavras, ainda vive imaginando coisas e ama sentir a música na ponta de seus dedos. Você não tem medo e é feliz. Você está se tornando a pessoa que nasceu para ser. Tudo o que está aprendendo, tudo o que faz, é para desabrochar flores novas. Você ama as pessoas e eu conto a elas.
Continue fingindo que isso é uma carta, embora pareça mais com um espelho.

Bia.