Felicidade, esse passarinho | Editora Intrínseca

Boa tarde, meus amores!

Que bom que o final de semana chegou para eu poder postar! Estou animada porque recebi o primeiro livro que pedi à parceira Editora Biruta, Batendo à porta do céu. Logo, logo tem resenha do livro para vocês!

Ok, quero começar esse fim de semana do Minhas Leituras repassando esse texto da Leticia Wierzchowski em sua Coluna no blog da Editora Intrínseca. Particularmente, achei que esse texto descreve perfeitamente a felicidade e é belíssimo!

Felicidade, esse passarinho | Editora Intrínseca

 De nada adianta uma janela para o verde se a gente não está feliz.
Sol, mar, dinheiro no banco, flores no vaso, se a gente não está feliz
não adianta. E o que é felicidade, alguém sabe me dizer? Alguém sabe
devolver a felicidade perdida, como aquele pé de meia que a gente nunca
mais encontrou, ou aquela caneta boa de escrever que sumiu do pote sobre
a mesa e não está em nenhuma gaveta, nenhum recanto, nenhuma bolsa, nem
no porta-luvas do carro ela está?

Felicidade não é uma coisa assombrosa, exuberante, grandiloquente.
Ela cabe em qualquer lugar, talvez por isso desapareça mais fácil e
tenazmente do que qualquer das canetas da minha mesa. Felicidade é uma
coisa suave, discreta, uma coisa assim meio bossa nova, soprada,
completa, redondinha. É quando tudo parece estar no seu lugar, tudo
perfeitamente concatenado, encadenado, como um bom par entrelaçando
pernas ao dançar um tango. Felicidade faz qualquer dia de chuva ficar
bonito, felicidade é de dentro pra fora, e nunca ao contrário.
Felicidade é igual a passarinho, ela não gosta de gaiola, ela voa quando
quer, ela pousa onde gosta, ela é minúsculamente perfeita enquanto
dura, e, depois, quando vai, deixa aquele silêncio medonho atrás de si.
Felicidade vai embora sem avisos, sem gritos, sem portas batendo ─ ela é
passarinho, voa e fim. E depois não me venham com passeios na areia e
paisagens bonitas, quando o olho que vê não está feliz, não adianta
nada, não senhor. Na verdade, até dói mais. É que nem moça de dieta na
frente de uma bandeja de doces, é igual a estar gripado num jantar de
cinco pratos, tudo com gosto de sabão, tudo igual, que monotonia. Quando
a gente está triste, pouca coisa nos sequestra da tristeza  ─ acho que
só filho mesmo, acho que só criança ou um bom poema, ou um filme
daqueles. Então a gente bate asas um pouquinho pra longe da tristeza,
sobe, vê o céu, até lembra o gosto de ser feliz, e então baixa de novo,
feito balão sem gás, com o nariz enfiado na areia outra vez.

Quando eu era pequena, meu pai sempre cantava pra mim uma música. Um
dia, em troca de uma guaraná, eu cantei a música toda e alguém lá de
casa gravou.
Felicidade foi-se embora e saudade no meu peito ainda mora…
Era eu lá cantando, de perninha grossa, cabelo encaracolado e vestido
azul. Era um tempo tão bom aquele que às vezes fico procurando aquela
menininha dentro de mim, tal qual procuro minhas meias e canetas.
Bastava um abraço do pai, um beijo da mãe, uma boneca de papel nova, e a
gente era feliz por um dia inteiro, até dois.

 Leticia Wierzchowski

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