Jane Eyre - Charlotte Brontë

Sinopse:

Jane Eyre, romance de estreia da consagrada e renomada escritora inglesa Charlotte Brontë, narra a história de vida da heroína homônima. Quebrando paradigmas e criticando a realidade vitoriana da época, Jane Eyre desafia o destino imposto às mulheres e as posições sociais que elas deveriam ocupar. Recheado de características góticas, o romance possui personagens inesquecíveis e transformadores, como a figura do misterioso Rochester, patrão de Jane e peça vital da narrativa.

Carta-espelho

   06 de agosto de 2016.

   Há muito tempo eu não escrevia, não é? Sei que você sentiu falta disso, eu também. De vez em quando, você sussurra uma ideia e eu digo que daqui a pouco. Mas daqui a pouco você desiste da ideia. Ultimamente, não tenho ficado satisfeita o suficiente com texto algum para conseguir chegar ao final. Então, finja que isto é uma carta. Fingirei que não estou escrevendo para mim mesma, se bem que falo sozinha o tempo todo. Quando eu ainda mantinha alguma regularidade (mesmo que de seis meses) com meu diário, era algo parecido com isso: escrever uma carta para ninguém, mas ele tinha um nome, assim como Anne Frank deu um nome para seu diário. Enfim, vamos fingir que isso é uma carta, que é algo que tenho escrito bastante nos últimos tempos. Resolvi que sempre vou escrever cartas para as pessoas, mesmo que só para a alegria de receberem algo feito só para elas, mesmo que não seja longa ou que repita coisas que eu já tenha dito. Além de cartas, a única coisa que tenho escrito muito mesmo são as redações de vestibulares, e como elas cansam, com suas 30 linhas e sua forma fixa – introdução, pensada por séculos, dois parágrafos de desenvolvimento, a melhor parte quando lembro de algum livro ou a mais cliché se não lembro de nada, porque elas se encaixam em qualquer tema possível, conclusão escrita sempre às pressas e um título mais ou menos. Estou muito mais para a liberdade modernista.
   Vestibular: disputando no ranking de palavras que mais ouço, concorrendo com Enem e a fatídica Já decidiu o que você quer fazer?. Repito para mim mesma todas as possibilidades de resposta, enquanto entro nos mesmos links do Guia do Estudante, os quais o mecanismo do google indica que já foram visitados 7 vezes (ou mais). Não vejo a hora de ter uma resposta. Passar para o curso e faculdade que eu escolher é meu principal objetivo desse ano, e ainda não o conheço. É difícil deixar quase tudo de lado só para estudar. É difícil não saber qual o limite que separa a necessidade do exagero. É difícil ser insegura em relação a muitas coisas e ter que decidir meu futuro. Você me lembra das minhas possibilidades e dos outros planos que tínhamos feito para esse ano. Mas o meu ânimo esmorece. E dói.
   Antes, crescer era só um verbo no horizonte, agora é não caber mais em qualquer lugar. É difícil admitir isso. É difícil encarar os últimos meses no lugar onde estive nos últimos dez anos. É difícil ter que escrever um texto tão ruim para sentir como se reabrisse uma janela que o vento fechou em mim. Quero escrever todos os dias e deixar em liberdade meus pássaros de papel. É bom ouvir o farfalhar de suas asas. Eles são as cartas que Deus me manda para que eu possa ver o que Ele vê nessa menina que eu sou. Todos os dias, Ele é quem não me deixa esquecer de todos os motivos que tenho para ser grata e para ser feliz. Mesmo que eu não faça para Ele tudo o que queria, os olhos dele acompanham todos os meus movimentos com atenção. Estou em dúvida em tudo, menos quanto ao seu amor, que é me sustenta e me encanta.
   Apesar de tudo, você ainda sonha em contar histórias que valham a pena com suas palavras, ainda vive imaginando coisas e ama sentir a música na ponta de seus dedos. Você não tem medo e é feliz. Você está se tornando a pessoa que nasceu para ser. Tudo o que está aprendendo, tudo o que faz, é para desabrochar flores novas. Você ama as pessoas e eu conto a elas.
Continue fingindo que isso é uma carta, embora pareça mais com um espelho.

Bia.



Compreensão



Independente das diferenças das convicções de cada um, eu queria muito que todos pensassem no quanto a Páscoa representa algo que todos deveriam colocar em prática no dia a dia: colocar-se no lugar do outro. Todos os dias temos que lidar com diferenças, com pontos de vista extremos e discussões acirradas em que os dois lados estão muito dispostos a gritar sua opinião e pouco a dar ouvidos aos outros. Ou seja, há muitos monólogos, muita gente querendo se impor e poucos dispostos a ouvir. E isso não é só em relação à política e não só nos comentários de textões do facebook. Isso acontece tanto numa esfera mais ampla da sociedade quanto na escola, na sala de aula, nas famílias, etc.. É muito chato quando qualquer coisa, por mais simples que seja, gera discussão porque parte dos envolvidos não consegue ver além de si mesmo. Só exige um pouquinho de compreensão para as coisas serem resolvidas sem alarde. Compreensão para se colocar no lugar do outro não significa concordar com sua posição ou aceitar tudo passivamente. Eu diria que está no princípio do respeito.      Indo um pouco além, também seria muito bom se cada um contribuísse do jeito que pudesse para melhorar o dia a dia das pessoas. Se procurassem mesmo nas pessoas mais diferentes de si algo de bom para acrescentar à própria vida, ao próprio caráter. Expandindo as fronteiras do mundinho que criamos para nós mesmos. É difícil, pra falar a verdade. Mas é bom e muito mais satisfatório do que viver numa bolha particular.

Simples existência

Simples existência

Breves passos pelo vento alçados
Vermelho (...)
Amarelo (,)
Verde (!)
Faixas brancas no asfalto
Pensamentos esparsos.

Abandono de esquina,
Arte de rua.
Cheiro de flores,
De cigarro, de escapamento
Gotas ocasionais.
Que simples existência.

Quantas histórias passam
No outro sentido da calçada.
E esta que caminha sem saber
O que é ser história.
Amarelo, verde, azul, vermelho
Reciclável.

Portas automáticas
Elevador, reflexo sem cor,
Sem lembranças suficientes,
Conclusões suficientes.
Um trajeto entre muros
Numa consciência à altura das nuvens
Prestes a desabarem.

Beatriz Teixeira

29/02/2016


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